18 de Outubro de 1999. Andulo último dia da resistência - Lourenço Bento



Certamente, nem todos sabiam que quando o presidente José Eduardo dos Santos declarou, na abertura do V Congresso do MPLA,  “fazer a guerra para acabar com a guerra”, no dia 5 de Dezembro de 1998, já as forças armadas angolanas e a polícia encontravam-se em progressão para o Andulo. A verdade é esta. Os primeiros choques entre as então forças residuais da UNITA e as do governo ocorreram no dia 5 de Dezembro, na zona norte do Kunhinga. Naquele mesmo dia ocorreram raídes aéreos sobre o território visado pela ofensiva das forças governamentais. Eu e o Adelino Mbongue  juntamo-nos às linhas defensivas e o que vimos na primeira BT, em matéria de danos humanos, apelava imediatamente às sãs consciências para a paz. Infelizmente, quem ordenou guerra estava no palácio de Luanda. Os expostos ao risco de morte e ferimentos eram os filhos dos pobres recrutados às pressas e mal treinados. O valor da vida não estava nas contas do então presidente de Angola. A ofensiva para a conquista do Andulo durou dez meses, envolvendo forças terrestres, apoiadas pela força aérea e artilharia pesada. Enquanto decorriam as diferentes fases da ofensiva, o Andulo e a sua periferia tornaram-se num alvo militar a destruir a todo custo. Foi fustigado frequente e ferozmente pela aviação de guerra. Estou lembrado bombardeamento aéreo do dia 14 de Março de 1999. Que o diga o meu irmão Lino Uliengue, uma das vitimas vivas daquele acto de crueldade. Eu tinha saído do Andulo, algumas horas antes para as linhas defensivas. Soube com dó que o Andulo tinha sofrido de ataque aéreo madrugador. Entre os vários raídes lembro-me daquele foi mais mortífero e devastador. Destruiu uma boa parte da vila e matou a viúva do Vice-presidente da UNITA, Jeremias Chitunda, a saudosa Mizé Chitekulu e as esposas e filhos dos Brigadeiros Amadeu e Lulú, respectivamente Augusta e Belita Cortês  com seus respectivos filhos. Foi terrível. As bombas caíram sobre o bunker que tinha abrigado várias famílias,  num total de dezassete pessoas. No dia que se deu essa grande tragédia, a Tia Adelina Kunateke tinha sido indicada a ir em missão de visita ao Director Manuel Fragoso, que se encontrava internado no hospital do Chikumbi. "Encontrei o Andulo mergulhado numa nuvem de tristeza e dor, nunca tinha havido tanta chacina como naquele dia", conta ela.  No dia seguinte foi realizado o funeral das vítimas. Foi dosolador e emocionante ver sobre o carro que levava os dezassete caixões, o Brigadeiro Amadeu Tchitekulu, acompanhando a sua esposa e filhos. De repente enquanto o cortejo se dirigia ao Cemitério Municipal do Andulo, tocou a  cirene, assinalando a partida de bombardeiros. A situação obrigou a que as mulheres não fossem ao Cemitério.



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Bem, não é disso que gostaria falar hoje, o que queria mesmo é falar do 18 de outubro de 1999, quando saímos do Andulo. 

Eu, fazia parte da equipa que garantia as emissões da VORGAN-Andulo, que emitia do Andulo para o Andulo e periferia. Os Coróneis Kungo, Sopite, o Mandy Ferramenta, Nela Kazoto, Geconias Samondo, Cremilde, Yola, Adelina Kunateke, Tio Moises Chilembo, Laurentino Chikwata, Alberto Tchinjumbia, Cristina Sussu "Toi", Lola Sebastião, Cremilde Caiotela, Felícia Chimela, Gomes de Jesus, Mangonga, Da Glória, Zé Ernesto, Kavita, Lutoki Matokisa, éramos uma equipa, cujo o Director era o saudoso Manuel Fragoso e tínhamos na direcção estratégica o Dr. Marcial Dachala, Secretário da Informação e o Secretário Geral da UNITA, Lukamba Gato. Estávamos na defensiva e todo o cuidado era pouco. Fazíamos movimento, sempre cautelosos e atentos aos factores de defesa passiva. Na manhã do dia 18 fomos a nossa trincheira profissional. Durante o noticiários, vieram os Sukois, todos nós corremos para os "copos", enquanto o colega Tó Katumbela lia as noticias. Os raídes eram frequentes. Quando cessou o bombardeamento, saí das instalações da VORGAN Andulo, fui ao escritório conjunto da Informação e Relações Exteriores. Enquanto me dirigia a esse escritório, ouvia metralhadoras de BMP, na direcção da nascente do Mémbia. A artilharia inimiga parecia estar perto. A Nela e o Jornal teimavam entre si, se o que ouviam eram saidas ou quedas, se eram nossas ou do inimigo. Mas a chegada na vila de elementos que era suposto estarem na defesa do Andulo, era indicador de que o cenário operacional tinha mudado drasticamente a favor do inimigo. Vi o General Implacável a dirigir-se ao gabinete do Dr. Savimbi e depois começou a haver movimento de veículos incomum, mas que indicava claramente uma alteração. 

Ao aperceber-me da entrada das FAA no Andulo, ainda tentei extrair o disco duro do computador e curiosamente a chave que sempre funcionou bem, naquele instante de enorme adrenalina não colaborou. As bombas caiam com cada vez maior intensidade. Abandonei o escritório e pús-me a correr para o prédio em que morávamos para ver se algo poderia levar. Estava já a escurecer. Os tipos tiveram sorte de chegar ao cair da tarde. O troar de canhões de longo alcance era intenso. Sai para uma direcção, que de repente foi pulverizada por canhōes de longo alcance, cujas bombas deflagravam chamas muito estranha. Naquele calor frenético achei a Nela Kazoto, a lutar com a sua trocha que conseguiu retirar de sua casa. "Man Lo, sou eu, não me deixa", dizia ela. Não a deixei, caminhamos juntos e tivemos de mudar de direcção, fugindo da zona quadriculada pela artilharia de longo alcance do inimigo. Passamos pelo matagal ao lado do aeroporto, evitando contacto com pessoas. Sentimo-nos seguros quando chegamos a Nhama. Naquela noite muitos regressaram a cidade do Andulo, recuperar algo para enfrentar a nova realidade. Separei-me da Nela que foi em busca de sua família e eu caminhei para a zona de Chimoña, onde estavam a minha esposa e filhos havia já vários meses. Somente ao cair da tarde do dia 19 de Outubro cheguei em Chimoña, a vários quilômetros a norte da missão de Chikumbi. As pessoas daquela posição não sabiam de nada. POSIÇÃO (era assim que se chamavam aquelas novas aldeias criadas na mata, por pessoas idas das cidades para guardar a vida), a situação parecia normal. Contei às famílias Feka, Kapaia, Obadias e outras o que se estava a passar e que a partir daquela altura tudo podia acontecer.




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