Retrato falado: o poder angolano de A a Z- Nelson Francisco Sul

Com a saída de José Eduardo dos Santos, senhor de um poder quase absoluto durante 38 anos, o poder mudou de rosto, embora vários analistas considerem que as velhas práticas de manutenção da hegemonia do MPLA continuam intactas. O general João Lourenço entrou em cena, surgiram novos senhores do poder, mas houve quem se mantivesse de «pedra e cal» na corte. O Novo Jornal dá-lhe a conhecer os poderosos, as teias e a influência dos novos 'players' nos últimos cinco anos.


 


ADÃO FRANCISCO DE ALMEIDA (43 ANOS). 


É filho de uma família (tradicional) de Catete, que, desde muito cedo, esteve envolvida na Luta de Libertação Nacional, em que se destacam figuras históricas do MPLA, como a lendária Deolinda Rodrigues, única mulher que integrou o primeiro Comité Director na década de 60, e Roberto de Almeida, vice-presidente do partido entre 2008 e 2016. Por conta do falecimento do pai, quando ainda era criança, Adão de Almeida passou para os cuidados de Roberto de Almeida, seu tio, que exerceu o papel paternal. É através do seu tio que o jovem 'Dadinho' (entre parentes e amigos) escancara as portas da política. Um jovem em ascensão desde a primeira década de 2000. A sua primeira aparição pública ocorreu como porta-voz da Comissão Nacional Eleitoral (CNE), de que era comissário nacional. 


Na altura, a CNE era presidida por Caetano de Sousa, hoje juiz jubilado do Tribunal Constitucional.  Depois de um 'trabalho bem feito' nas legislativas de 2008, Adão Francisco Correia de Almeida é nomeado vice-ministro da Administração do Território para os Assuntos Institucionais e Eleitorais. Torna-se no braço direito de Bornito de Sousa. Antes, com apenas 30 anos, havia integrado a Comissão Técnica da Comissão Constitucional da Assembleia Nacional. Sete anos depois como n.º2 da Administração do Território, e na sequência das eleições gerais, assumiu a titularidade  da pasta em 2017. Em 2020, com a remodelação orgânica dos departamentos ministeriais, substituiu Frederico Cardoso na chefia da Casa Civil do Presidente. A partir deste momento, passa a ser cogitado como um presidenciável, mas, afinal, os planos do 'chefe' eram outros.




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BORGES (58 ANOS). 


O ministro da Energia e Águas, João Baptista Borges, é um homem de sorte. No cargo desde 2012, nos últimos cinco anos, o seu nome e o da sua família têm sido referenciados em vários escândalos de corrupção e branqueamento de capitais. Documentos a que a portuguesa TVI teve acesso referem que uma empresa chinesa, sediada em Hong Kong, subcontratou uma instituição angolana, a DIVERMINDS, para apoio técnico em contratos públicos no sector da Energia, em Angola, por quase 1 milhão de euros. Acontece, porém, que a empresa angolana é do filho e de um dos sobrinhos do ministro que tutela o sector. Desde que ascendeu ao cargo, refere a imprensa de Lisboa, é comum membros da sua família comprarem bens imobiliários de alto valor em Portugal. Baptista Borges esteve ainda no centro da polémica, na sequência da rescisão de 13 contratos com a eléctrica AEnergy, um contencioso que foi parar nos tribunais norte-americanos. Entretanto, se a responsabilidade da rescisão milionária não pode, por simplesmente ser atribuída ao ministro da Energia e Águas, o facto mesmo é que os maiores projectos e investimentos de infra-estruturas do País, como o estabelecimento da rede eléctrica, o canal de Cafu e a construção das barragens de Cambambe e Caculo Cabaça, passam pelo gabinete de Baptista Borges. 


CARRINHO.

 

É uma das ‘meninas dos olhos bonitos’ em matéria de contratação pública, com o Estado angolano a investir largos milhões de dólares. Com sede no Lobito, província de Benguela, o Grupo Leonor Carrinho, fundação em 1996, nasceu como sociedade limitada, mas, em 2016, a natureza da sociedade foi alterada para anónima. A razão para alteração do pacto social é algo que se vai descortinar lá mais para frente... São dezenas de adjudicações directas e duas garantias soberanas a favor da Carrinho, através de decretos exarados pelo Presidente João Lourenço ou, ainda, por parte de departamentos ministeriais. O mais recente contrato milionário de que se beneficiou, através de uma das suas subsidiárias (Gesceta), está orçado em 200 milhões de dólares/anual. Trata-se da Reserva Estratégica Alimentar (REA). Em momento de 'vacas gordas', atendendo ao volume de negócios que detêm com o Estado, o Grupo Carrinho ganhou folga para adquirir a totalidade do capital social do Banco de Comércio e Indústria (BCI), que tinha no seu corpo societário a SONANGOL, ENSA, ENDIAMA, Porto de Luanda, Angola Telecom, TAAG e TCUL.


DIAMANTINO AZEVEDO (59 ANOS)


É um homem rico. Reservado e pouco dado a relações partidárias, mesmo com os seus colegas no Governo, o actual ministro dos Recursos Minerais, Petróleo e Gás é descrito como tecnocrata, competente e rigoroso em matéria de transparência. Quando, pessoalmente, João Lourenço o convidou a integrar o seu Governo, Diamantino terá imposto uma condição: que não abdicaria das participações societárias que detém em várias empresas. Doutorado em Engenharia de Minas na Universidade Técnica de Berlim (TU Berlin), é dos poucos homens que gozam da estima do Presidente da República, que confiou a si o dossier da privatização da maior empresa pública do País, a SONANGOL, e a construção das futuras refinarias de Cabinda, Soyo e Lobito. É o ministro interlocutor entre os governos de Angola e da maior economia da Europa, a República Federativa da Alemanha, confidenciou ao Novo Jornal um diplomata alemão. 


EDELTRUDES GASPAR COSTA. 


“Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vai ao Pai senão por mim. Se me conhecestes, conhecereis também o meu Pai”. Essa passagem contida nas Sagradas Escrituras, atribuídas a Jesus Cristo, é a mais perfeita frase para ser encaixada no perfil deste antigo ministro de Estado e Chefe da Casa Civil do Presidente José Eduardo dos Santos e actual ministro e director de gabinete do Presidente João Lourenço. Edeltrudes Maurício Fernandes Gaspar da Costa é, sem sombras para dúvidas, o mais influente dentre os colaboradores mais próximos de Lourenço. Um autêntico oligarca africano. Durante os últimos cinco anos, o seu nome esteve arrolado em vários escândalos de tráfico de influência e negociatas com o Estado, mas o Presidente preferiu manter firme a confiança no seu “braço direito”. Também não teve consequência o anúncio do procurador-geral da República, Hélder Pitta Gróz, de que a PGR estaria a "apurar dados para investigar" as denúncias tornadas públicas pela televisão portuguesa TVI, segundo as quais uma empresa de consultoria do chefe de gabinete de João Lourenço teria beneficiado de vários milhões de dólares em contratos públicos autorizados pelo chefe de Estado. Tratamento diferente tiveram vários governantes. A título elucidativo, Carlos Panzo foi exonerado uma semana depois de ter tomado posse como secretário para os Assuntos Económicos do Presidente, na sequência de notícias que davam conta de que as autoridades suíças estariam a investigá-lo por branqueamento de capitais, num alegado esquema de recebimento de luvas provenientes da construtora brasileira Odebrecht. Panzo acabou inocentado, mas Nandinho (apelido de Edeltrudes) é um super-ministro da entourage de João Lourenço, “um novo Kopelipa”, refere a Africa Monitor Intelligence.


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