Lei de Talião, sim, mas nem tanto- Graça Campos



Até aos 11-12 anos, idade com que fui “desterrado” o internato da Escola Luz, no Quésua, em Malange, os meus pais não me permitiam qualquer contacto com óbitos e, menos ainda, com mortos.

Considerada como criança, a minha geração tinha conhecimento da ocorrência, muito rara, de óbitos na sanzala, mas não lhe era permitido qualquer contacto visual com o defunto.

E quem, de entre nós, tivesse o azar de ver um morto, tinha, garantida, no mínimo uma semana de pesadelos.

É por causa dessa cultura que, mesmo já nos centros urbanos, nos servíamos das pernas para nos pormos o mais distante possível dos carros funerários. A aproximação de um carro funerário desencadeava uma fuga desordenada.



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E quando já não houvesse tempo para a “fuga precipitada e em debandada”, reclinávamos imediatamente para que o Cunha e outros cangalheiros não nos medissem a altura.

A banalização da morte em Luanda, por exemplo, chegou com os “Irmãos Kambutas”, portadores da utopia da criação do homem novo.

Em 1975, o MPLA transformou os fuzilamentos em espectáculos de massa, de acesso irrestrito.

Aos 14/15 anos, morando na Samba Pequena e outros  da minha geração eramos convidados a ir ao chamado Campo da Revolução para assistir aos fuzilamentos que o MPLA fazia regularmente. Lembro-me de ter visto ali pessoas mais novas do que eu.

Alienados e hipnotizados pela euforia com que os construtores do homem novo tiravam a vida a outros, nós, crianças, saíamos do Campo da Revolução felizes de vida, gabando-nos do ângulo em que tínhamos visto a vítima a tombar ou se tombou ao cabo de quantos tiros.

É desse tempo de fuzilamentos abertos a todos que vem a cultura do assassínio sem hesitação que hoje tomou conta de muitos agentes da Polícia.

O agente do SIC que executou sumariamente dois pretensos delinquentes, totalmente dominados e indefesos, é produto de uma cultura. A cultura da banalização da morte.

Sou um indefectível da Lei de Talião – unha por unha e dente por dente. Também subescrevo integralmente o provérbio, de origem desconhecida, segundo o qual quem com ferro mata, com ferro morre.

Defendo que quem tira a vida a outro por um telefone, uns míseros tostões também deve “pagar” na mesma moeda.

Mas embora concorde com a reciprocidade, entendo que as execuções feitas por agentes da lei devem estar cobertas de algum recato. Deveriam ser feitas longe dos olhares dos cidadãos comuns.

Não é aceitável que a Polícia transforme as execuções em espectáculos públicos, gratuitos e acessíveis a todas faixas etárias.

No tempo em que se prezava – e muito – a vida humana, as principais armas de luta eram a força física, o jeito e a violência da cabeçada – minha especialidade.

Hoje, “putos” de 15 ou pouco mais vão a lutas de bairro munidos já com catanas, facas, cacos de vidro, instrumentos que visam tirar a vida ao oponente. E os vencedores comemoram a morte de adversários em bares e esquinas onde conteúdos etílicos circulam livremente.

Por certo é o que fez o agente do SIC que matou a sangue frio dois supostos delinquentes. Deve ter parado no primeiro bar que lhe apareceu para comemorar com colegas a façanha...




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