A propósito dos anos de Luanda no Metropolitano: OS SOBREVIVENTTES DA CACIMBA DO B. INDÍGENA- SALAS NETO



Nunca caíra tanta água do céu em Luanda, como aconteceu em Maio de 1963, quando chuvas diluvianas, com pelo menos dois dias de duração, se abateram sobre a cidade, deixando-a num estado catastrófico, com prejuízos financeiros e materiais gigantescos.

«Fiel depositária» de toda a água e detritos que escoaram da parte alta, a caminho do mar, com o qual acabou por se confundir na zona da baía, a baixa de Luanda esteve transformada durante um bom tempo num verdadeiro «cemitério» de carros quase submersos e produtos de todo o tipo, incluindo os saídos de montras de estabelecimentos comerciais invadidos pelas chuvas, como o famoso «Quintas e Irmãos», a boiarem nas águas que a inundavam. 



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Segundo dados oficiais das autoridades coloniais, só ao fim de cinco anos de várias empreitadas de construção civil e outras é que a cidade conseguiu recuperar-se completamente dos danos provocados por essas enxurradas históricas.

Quer dizer, em bom rigor, na verdade, nem tudo chegaria a ser recuperado. Foi o caso do famoso «Bairro Indígena», que nunca mais voltaria a ser o mesmo depois dessas chuvadas de Maio de 1963, até acabar por ser demolido em grande parte, nos primórdios dos anos 70, para dar lugar à cidadela desportiva e às torres vizinhas, ainda antes da independência.

Imortalizado pelo músico Santocas, numa canção revolucionária com o mesmo nome, o «Bairro Indígena» era uma das urbanizações de casas sociais que os colonos começaram a espalhar por Luanda a partir dos anos 50, para esbater a pressão habitacional que resultava do «enxotamento» dos negros do centro da cidade, por um lado, assim como das migrações de populações camponesas do resto da colónia que acorriam à capital, por outro, além de cidadãos que eram repatriados dos dois congos, nessa altura já envolvidos em turbulências pela independência. É daí que nasceram também os chamados blocos do Simão Toco, os saiotes, as bês e cês, as comissões do Rangel e do Cazenga, os cassequeis e outros, enfim.

Ora, como estava construído numa pequena depressão, o «Bairro Indígena» acabou por receber mais água do que os conglomerados vizinhos, dando lugar a uma lagoa que nunca mais secaria por completo, já que passou a haver problemas de inundações sempre que chovesse. E assim nascia a «cacimba», palco para as brincadeiras da criançada das redondezas e de milhares de histórias, qual delas a mais rocambolesca.  

A seguir ao dilúvio daquele Maio aguado de 1963, assim que as águas baixaram, muitos dos desalojados ensaiaram o regresso, mas o número dos «heróis» que aceitavam viver como anfíbios foi diminuindo a cada ano, até que desapareceram todos. Os mais rijos mudavam-se para casas de parentes em outros bairros sempre que a lagoa enchesse por conta dalguma chuvada, para regressarem quando a «maré» baixasse, sendo que outros aproveitavam as partes mais secas para fazerem as suas hortas e assim, até que as autoridades coloniais resolveram acabar com a conversa toda, cedendo o pantanal todo ao FC Luanda, para a edificação do seu complexo desportivo, que estava para albergar um campeonato do mundo de hóquei em patins se não tivesse acontecido o «25 de Abril» de 1974.     

Creio que os últimos «sobreviventes da cacimba» eram um antigo soldado africano das forças expedicionárias portuguesas que andaram a lutar pela defesa das colónias lusitanas na Ásia e a esposa chinesa que trouxera de Macau. Era vê-los, já velhinhos, ele todo atarracado, cheio de batatas nas pernas, sempre daqueles calções dos chimbas, botas de chuva e um balde na mão, e ela bem cambaia da vida dela, a desfilarem pelo bairro de mãos dadas, enigmáticos, quase nunca falando para ninguém, como se só eles contassem no mundo. Não sei o que foi feito deles.

O antigo «Bairro Indígena» não foi destruído por completo, já que sobreviveram umas vinte casas, ali entre o hospital Américo Boavida, a cidadela desportiva, as Bês e a cadeia de São Paulo.

Hoje, também por conta dalguma «força literária e jornalística» minha, modéstia à parte, é tratada por «Bairro Indígena» parte do «Nelito Soares», entre a Lino Amezaga e a Senado da Câmara, por um lado, e entre a Deolinda Rodrigues e a Avenida Brasil ou Hoji-ya-henda, por outro.



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