A INTELIGÊNCIA DOS POLVOS- ALEXANDRA SIMEÃO



“Existe uma tendência dos Estados mais fracos em procurar no passado soluções para o futuro. Daqui nasceu a expressão “aprender com os próprios erros”. No caso de Angola o passado que nos governa desde a proclamação da Independência não tem nada que possa ser útil ao futuro, do ponto de vista governativo. Eivado de erros que fizeram milhões de vítimas, foi ao mesmo tempo incompetente na definição de uma estratégia de desenvolvimento consequente, não obstante não terem faltado nem recursos, nem conselhos para evitar o colapso. O que o país precisa hoje é de decisões lúcidos e capazes de encontrar soluções eficientes para o saneamento básico, sustentabilidade alimentar, a universalidade do ensino primário de qualidade e o acesso à água potável e energia para todos os cidadãos. Sem que isto esteja conseguido tudo o resto é permanecer no círculo vicioso que se tornou inimigo do desenvolvimento. Está provado que o luxo e o supérfluo não salvam vidas.  O que percebemos hoje é que a ética, a prioridade, a ciência, a transparência e o amor pelo próximo ainda não foram lições aprendidas.




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O governo de ontem e de hoje tem demonstrado uma preocupante aversão ao planeamento sistemático. Falta-lhe a boa vontade, a capacidade de análise, de coordenação consciente dos meios disponíveis para responder às necessidades estruturantes e prioritárias sem as quais não se edifica um país. Acima de tudo falta-lhe a responsabilidade da obediência pela sua condição de servidor público cuja missão é colocar os interesses da nação acima dos interesses pessoais, partidários e da manutenção do poder. É aqui que reside a diferença entre as nações ricas e as nações pobres. As nações pobres “só são pobres porque são mal administradas” como defendeu Peter Ducker e não têm qualquer sentimento de pertença aliado ao projecto de nação, defendo eu.


Hoje é evidente a crítica colectiva às acções descoordenadas, sem lógica, imorais e sem qualquer critério de emergência para onde são canalizados biliões de dólares, na sua maioria para a edificação de elefantes brancos, estádios, aeroportos internacionais, ginásios parlamentares, entre tantas outras dissonâncias cognitivas, que só nos envergonham. Esta propensão para degenerar tem sido épica. 46 anos depois continuamos reféns do exterior até para decifrar uma análise, não obstante os milhões gastos, recentemente, em eficientes laboratórios de biologia molecular. Depois do falhanço épico da diversificação económica, ainda que o governo repita até à exaustão que ela existe e é um caso de sucesso mostrando aqui e ali algumas bacias de tomate na Euronews, a redução do consumo das famílias é prova de que nem todos conseguem comer o que é importado. 46 anos depois ainda importamos sal, trigo, milho, açúcar e todos os outros produtos básicos, não obstante o contínuo e generoso investimento em empresas públicas e privadas para reduzir este desconforto, sem que consigamos perceber a razão dos precários resultados.


Entrámos em 2022 com o poder político ameaçado face ao descontentamento colectivo em relação a um partido, que tendo beneficiado de um longevo reinado, nunca tendo perdido o poder (não obstante as inúmeras acusações de ilegalidades eleitorais) não foi capaz de dar o salto qualitativo para a equidade social, por maior que fosse o eco que sempre foi dado aos miseráveis programas de combate à pobreza.  O drama de não termos problemas novos é suficientemente esclarecedor e prova a falta de compromisso com uma cidadania ética que coloque a resolução dos problemas do povo como a única prioridade.


O retorno à idolatria do líder, um culto que nos foi prometido que não aconteceria, é o responsável pela ruína do brilho inicial que se esperava de uma Angola Nova, é deprimente. A edificação de uma censura de ferro, colocando a imprensa pública ao serviço do partido no poder e negando o mesmo acesso aos adversários mais fortes, é feita por ferranhos defensores do indefensável com base na mesma cartilha enferrujada e sem elegância, cujo único objectivo é garantir um lugar ao sol na cozinha do poder, impedindo um debate justo e arejado de ideias. O comportamento do Tribunal Constitucional, bússola da democracia, é trágico. A estratégia em curso de uma “nova” acumulação primitiva de riqueza (primitiva em todos os sentidos) é repugnante. A negação da existência de fome é Angola, é diabólica. Engana-se quem acreditar que as técnicas soviéticas terão sucesso e que com elas acontecerá o reconhecimento pelo povo da glorificação do absurdo.


Todos os dias a democracia conquistada com sangue e lágrimas encolhe um pedacinho. A nossa democracia está em pleno retrocesso e é importante avisar que no século XXI é impossível manter uma governação com recurso ao medo e à violência para calar a maioria discordante. As pessoas que discordam fazem-no porque não foram atingidas por nenhuma forma de governação que mitigasse, sequer, os seus problemas básicos, deixaram de acreditar no futuro depois de terem consentido todos os sacrifícios e hoje sabem a diferença entre esperar e perder tempo. A maioria destas pessoas não tem nada a perder, face à dor constante e à precariedade de que é feita a sua existência. O paradoxo do projecto de ditador do século XXI é que ele precisa de CRIAR A ILUSÃO do apoio popular porque este deixou de ser espontâneo pelo desaparecimento do medo por parte da maioria da população mundial. Este exercício requer arte e engenho que tem faltado de forma flagrante, entre nós, pois os actores perderam a credibilidade por não saberem fazer a diferença de forma convincente e inovadora.


É visível que em muitos países africanos a estratégia política é claramente pensada com os pés (com base em intenções meramente eleitoralistas ou no egoísmo do enriquecimento e fortalecimento de pessoas ou do grupo dominante) daí o fracasso no desenvolvimento económico e social da maioria e Angola não é excepção. Li numa revista científica, há muitos anos, “que os polvos são os únicos animais que pensam com as pernas.  Os seus tentáculos têm 70% dos neurónios e convivem uns com os outros sem passar pelo cérebro central”. Caso não consigamos copiar a façanha dos polvos, a única solução do governo é ouvir os eleitores com o coração e colocar a ciência ao serviço das soluções mais eficazes que permitam contruir um país para todos. Caso contrário teremos pela frente anos críticos, atrevo-me mesmo a dizer perigosos, em todos os sentidos, pois 67% da população angolana tem menos de 35 anos, está, desempregada, desabrigada, desqualificada, desnutrida, desamparada, descrente, destruída, descalça, sem nada a perder e já demonstrou que não está disponível para permanecer na mesmice. O futuro de Angola está nas mãos desta juventude sem ligações ao passado, isenta de medo, consciente dos seus direitos e dos desafios mundiais e que apenas exige os mínimos olímpicos constitucionais obrigatórios e inalienáveis em todas as democracias.”


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