UNITA E MPLA: UMA ANÁLISE DAS DUAS "RELIGIÕES" À LUZ DA ÉTICA KANTIANA EM "A METAFÍSICA DOS COSTUMES" - Nelson Custódio¹


Uma das coisas que rapidamente descobri quando cheguei a idade da razão, foi ter-me dado conta de que Angola, o nosso país é um país cuja realidade é de bipolarização. Sim, somos e vivemos numa espécie de “matrix”, onde inevitavelmente temos que nos submeter/escolher apenas um dos dois lados, politicamente falando. As nossas escolhas nos trouxeram até aqui, formatamos essa cosmovisão para nós mesmos, - não temos, portanto, do que nos envergonhar por sermos assim!


Neste contexto, ou você é do MPLA ou você é da UNITA, simples assim (lembrado que não estou excluindo os outros partidos no sentido de aniquilá-los, mas me reporto apenas a este dois por serem os maiores e por serem adversários políticos directos)! 



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Com efeito, não ser ou não pertencer a um desses dois super colossos que formam o espectro da política nacional, é algo estranho, você simplesmente fica parecendo um ateu, um sem religião. Na verdade, pegando o gancho na religião, rapidamente me dou conta de que no fundo no fundo todos nós somos autênticos religiosos, adeptos de duas grandes religiões, os partidos políticos UNITA e MPLA.


Isso é um problema? Óbvio que não, sobre tudo se levarmos em conta o facto de que não ter religião, também é em si uma forma de ser adepto de uma religião, a do ateísmo - sobre esse assunto eu me aprofundo noutra oportunidade!


Como supra frisei, não existe problema algum em pertencermos à uma destas duas religiões, ou seja, de sermos adeptos de um dos dois partidos políticos, a UNITA ou MPLA. A grande questão reside no facto de procurarmos saber se efectivamente sabemos as razões e motivações que nos fazem pertencer a um e não a outro partido político, ou seja, porquê eu/nós sou/somos da UNITA e não do MPLA, do MPLA e não da UNITA? Essa é a grande questão! 


Certamente cada um de nós tem as suas razões, temos de as respeitar, afinal vivemos formalmente num ambiente democrático. No meu caso, entretanto, a escolha de um pelo outro, ou seja, da UNITA pelo MPLA, deveu-se essencialmente por questões de valores e de princípios, ou seja, foi uma questão de enxergar mais virtudes num do que no outro! 


Pois bem, tomando por base Kant em a metafísica dos costumes, obra fundamental para a compreensão do seu pensamento, publicada em 1797, o autor encerra o conjunto de obras dedicadas à filosofia moral, permitindo uma visão sistemática de seus escritos sobre política, direito e virtude. Não é por acaso que nas últimas décadas os estudos kantianos vêm atribuindo cada vez mais importância à obra, reconhecendo nesta a “forma final” de sua filosofia prática.


A metafisica dos costumes é, de acordo com a definição de Kant, uma metafisica do uso prático da razão pura, ou seja, uma «metafisica da liberdade». Do ponto de vista da filosofia crítica, os “costumes” não são entendidos de um jeito institucionalista, mas como actuação do princípio da liberdade. As doutrinas da moralidade (Lehren der Sittlichkeit) têm como objecto as “leis da razão pura Prática” ou “leis da liberdade”, subdividindo-as Kant em leis “jurídicas” e leis “éticas”, e nessa doutrina pura dos costumes “não se toma por fundamento nenhuma antropologia (nenhuma condição empírica)”, mas sim a estrutura da vontade (Wille) moral, como autodeterminação pura e incondicionada: a liberdade, como autonomia, é a ratio essendi da lei moral e a lei moral a ratio cognoscendi da liberdade. A doutrina dos costumes (Sittenlehre) só é possível a partir de “um princípio prático puro, que constitui inevitavelmente o começo e determina os objetos com os quais apenas ele se pode relacionar”. De acordo com o dualismo transcendental consubstanciado na contraposição entre “natureza” e “liberdade”, Kant separa a noção de “pessoa” da noção de “substância”. Esta separação é empreendida, sobretudo, no capítulo relativo aos paralogismos da razão pura, na Crítica da Razão Pura; na solução da “terceira antinomia”, na Crítica da Razão Pura, Kant procede à definição da “pessoa” como entidade moral, desenvolvendo esta definição na Crítica da Razão Prática e na introdução a A Metafisica dos Costumes: segundo Kant, “pessoa” é o sujeito cujas ações são suscetíveis de imputação (Zurechnung), por contraposição a “coisa”, como “aquilo que não é passível de imputação”. O que institui o sujeito como “pessoa”, como um ente suscetível de imputação de ações e de responsabilidade, é a liberdade, a faculdade de autodeterminação racional.²


Gosto e sou apaixonado pela lógica de funcionamento da UNITA, porquanto, se assenta no ideal de liberdade; não é utilitarista, portanto. Em síntese para Kant liberdade é autonomia, autonomia é ter a capacidade de fazer escolhas sem ser condicionado nem a priori muito menos a posteriori. Um cidadão, nesse contexto, que pertence a um partido político que não exercita a democracia interna, não pode ser livre e nem pode desejar viver num país livre na medida em que não tem opção de escolha livre, posto que esta está condicionada à vontade de um só a priori.


Em 4 anos de militância no partido UNITA, não me lembro ter decidido ou participado de algo que não fosse fruto da minha própria escolha, da minha consciência, da autonomia, portanto. Nunca fui obrigado a fazer ou deixar de fazer algo que fosse contra meus valores e princípios cristãos, por exemplo. Isso me deixa muito confortável, mesmo sabendo que me submeto à disciplina partidária e à ordem. Toda instituição tem os seus dogmas, seus códigos de conduta, sem os quais ela se afundaria em si mesma e a UNITA não é diferente!


Entretanto, o que mais me anima no Partido UNITA é saber que ela prima por valores que mais vão ao encontro daquilo que acredito como valores transcendentais. Valores como, patriotismo; democracia; respeito pelos direitos humanos; liberdade e cidadania, dentre outros, são valores políticos prescritos estatutariamente. Se a UNITA é uma religião, é a religião da liberdade individual, da autonomia do sujeito, algo mais próximo, portanto, do que as escrituras sagradas prescrevem.


Quanto ao MPLA, eu simplesmente não consigo assimilar a sua lógica religiosa. De início, ela se baseia no marxismo, fruto da dialética hegeliana. O marxismo é ateísta, matou o Deus da bíblia sagrada, considerando a religião da bíblia como ópio do povo; mas ele em si mesmo é contraditório na medida em que se transformou numa religião, o único ser absoluto, que não admite concorrência de contrários. A ética marxista é em essência uma antítese à liberdade individual, mata a possibilidade de exercício da cidadania activa, participativa e responsável. É, portanto, antidemocrática e isso choca directamente com valores e princípios cristãos, princípios esses que formam a base da civilização ocidental, assente no judaísmo-cristão. 


Ora, olhando para Angola, percebo que a forma como o nosso país é governado segue clarividentemente a lógica marxista em que o estado e o partido se apresentam e se assumem como os únicos seres pensantes, os únicos donos da verdade, que nunca falham, sempre se apresentando com uma lógica messiânica prometendo ao povo angolano uma redenção numa terra prometida que nunca existirá. A lógica marxista é mais utópica do que a lógica religiosa assente no cristianismo. Não é atoa que Angola até hoje não seja considerada uma verdadeira democracia. A lógica marxista é autoritária e antidemocrática e o MPLA expressa muito bem essa realidade. O MPLA, mata, portanto! Mata porque rouba de nós os espaços de liberdade e exercício da cidadania. Sem liberdade não há democracia, sem democracia, não há liberdade. Como se vê, não tem como eu fazer parte de uma Partido/religião que se contrapõe à lógica dos ensinamentos do Senhor Jesus Cristo prescritos em Mt. 5, 6 e 7.


Em síntese, entre a religião da UNITA e a religião do MPLA, eu prefiro, certamente, a religião da UNITA porquanto eleva a alma e o espírito, já a religião do MPLA, essa religião mata; e, essa minha análise, não é utópica, apaixonada, desprovida de racionalidade, é só fruto de um olhar pela forma como Angola tem sido governada ao longo de mais de 45 anos. Angola, neste caso é a minha grande referência e não posso chegar à outra conclusão que não seja essa quando a enxergo por dentro. É urgente, portanto, invertermos essa lógica que enegrece a alma e endurece o espírito, que roube de nós a capacidade de sermos nós mesmos...


A partir do morro do Dinguiri, no município do Seles, ao serviço de Angola e dos angolanos...


Nelson Custódio 

18/12/2021


¹Secretário Provincial Adjunto e Governo Sombra da UNITA no Cuanza Sul.

²https://gulbenkian.pt/publication/a-metafisica-dos-costumes/



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