Jovem hermafrodita à procura de cirurgia: “Quero apenas ser uma mulher!”



À primeira vista, vê-se uma mulher, até, pelos traços fisionómicos. Mas, depois de retirar a roupa, há um ser com um caso que levanta dúvidas sobre a sua identidade sexual. A repórter assusta-se quando a jovem baixa as calças largas e mostra-lhe os órgãos genitais.




Tem pénis, com um tamanho normal de um homem adulto, que, quando murcho chega aos oito centímetros, mas, se erecto, pode atingir mais ou menos entre 14 e 18 centímetros de comprimento. Ao mesmo tempo, um pouco mais abaixo, vê-se a vagina.


A jovem sofre de hermafroditismo, um problema de má formação congénita que provoca o surgimento de dois órgãos genitais numa só pessoa; o feminino e masculino. Por regra, o caso é identificado logo à nascença.



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Para algumas crianças que tiveram a sorte de nascer em lares com algumas condições, esta situação não constituiu grande problema, porque por meio de uma cirurgia se define logo o sexo e as pessoas crescem felizes e seguras de si mesmas, por saberem que são ou homens ou mulheres.


Esse não é o caso da entrevistada do Jornal de Angola e Maria Ngueve, de 22 anos, nascida e criada no município da Matala, província da Huíla, que desde à nascença, foi desprezada pelos pais, por ser hermafrodita. "Comecei a notar que era diferente das minhas amigas, aos seis ou sete anos, porque elas tinham vagina apenas, mas eu, além deste órgão, tinha, também, o pénis”.


Por causa disso, a menina chegou a ser alcunhada de "Maria Homem”. Mas, a par dos actos de bullyng, muitas amigas deixaram de brincar com ela e fugiam quando a vissem por perto.


Apesar do isolamento e da amargura, na altura, não entendia o que se passava. "Quando os meus pais me abandonaram, fui acolhida pela minha avó, que cuida de mim desde bebé”, lamentou a jovem aos prantos.


Neste momento, deixou a avó e veio a Luanda, para conseguir a cirurgia que tanto procura, para ser a pessoa que quer. "Prometi a mim mesma que, quando fosse grande, sozinha ou com ajuda de gente de boa fé, iria à capital ou ao exterior do país para me tratar. Só quero ser mulher”.


Essa determinação em procurar ajuda não apaga a tristeza da jovem. "É muito duro viver assim! Não sei quem sou, tenho de vestir sempre roupas largas por baixo só para não descobrirem que sou hermafrodita. Imagine que quero ter um namorado e não posso”.


Tal como acontece nos homens, acorda, igualmente, com o pénis erecto. Essa situação a deixa triste constrangida e deprimida, por ser algo que quer esconder, mas o seu lado masculino, infelizmente, não deixa.


E, como as mulheres, tem o ciclo menstrual regular e urina apenas pela vagina e agachada, também. "Embora tenha pénis e fique erecto nunca me apaixonei por mulheres, por mais bonitas que sejam. Eu gosto mesmo é de homens. Por isso, quero namorar como as outras raparigas, casar e ter os meus filhos, mas, isso, depende desta cirurgia”, anseia a jovem da Matala.


Há uns três anos, apaixonou-se por um colega de escola, na Huíla. Namoraram, mas a relação durou apenas dois meses, porque o parceiro quis um envolvimento de maior intimidade. "Com medo de ele descobrir a minha situação e me desprezar, fui obrigada a terminar tudo”, lamentou.


Por conta disso, começou a isolar-se, deixou de ir à escola e, inclusive, por duas vezes tentou o suicídio. "Neste dia, por sorte, a avó estava em casa e evitou o pior”, lembra com mágoa a jovem, que terminou, em 2019, o ensino secundário em Ciências Físicas e Biológicas.


A luta pela cirurgia


A luta da hermafrodita por uma cirurgia intensificou-se, no ano passado, quando se dirigiu ao Hospital Provincial da Huíla. A gineco-obstetra cubana que a atendeu, por três vezes, compadeceu-se e levou-a à direcção da unidade sanitária, para ter um acompanhamento mais específico.


Por falta de condições para a realização da operação localmente, foi enviada a Luanda, por meio de uma junta médica. "Vim sozinha aqui e, como não tenho família na capital do país, pedi abrigo a uma ex-colega de escola que vive em Viana”, contou.


Porém, a amiga com quem vive em Luanda também não sabe que é hermafrodita. "Tenho receio de lhe contar, ser discriminada e expulsa da casa dela. Se ela não tiver informações, pode achar que sou um monstro”, realçou triste.


Voltando à questão da Junta Nacional de Saúde, onde recebeu o processo número 35, foi indicada para a Maternidade Lucrécia Paim, mas esta unidade não assiste casos de hermafroditismo. Mesmo desapontada e cansada, prometeu não desistir.


"Voltei à Junta, para tentar explicar a situação, mas fui informada que a funcionária que acompanha o meu processo viajou. Já se passaram dois anos e a referida senhora nunca regressa”, lamentou a jovem.


Nesse período de espera pela funcionária da Junta Médica, a jovem procurou pelos serviços do Hospital Américo Boavida, onde fez uma série de exames e gastou algum dinheiro, mas não recebeu garantias de solução do problema. Depois, acorreu ao Josina Machel, onde foi, também, informada de que "nenhuma unidade pública do país assiste casos de hermafroditismo”.


Esperança no fundo do túnel


De volta ao Lubango, a avó aconselhou-a a procurar por mais hospitais e a pedir ajuda, através dos órgãos de comunicação social de Luanda. Em Julho deste ano, regressou à capital do país e, no Hospital Geral de Luanda, está a ser seguida por uma equipa de médicos que faz internato. Estes profissionais estão a fazer contactos com direcções de vários hospitais e clínicas locais.


Os médicos apelam, inclusive, a ajuda especial do Ministério da Saúde, para que, dentro das suas possibilidades, intervirem no caso da jovem da Matala, no sentido de ela beneficiar da tão desejada cirurgia, que vai mudar o rumo da vida da jovem, que anseia formar-se em Medicina. "Meu projecto de vida é continuar a formação, para poder ajudar pessoas como eu”, realçou a hermafrodita.


Medo de discriminação esconde casos


O médico generalista Daniel Dambi, que acompanha este caso, considerou a entrevistada do Jornal de Angola como uma jovem de muita coragem, por ter decidido lutar pelo que tanto quer: ser apenas uma mulher.


Daniel Dambi referiu que diferente daquela jovem há muitos casos de pessoas que se escondem com o problema, para não sofrer discriminação. Mas, uns ganham coragem e buscam tratamento ou ajuda. No seu consultório a nível do Hospital Geral de Luanda foram registados três casos de adultos hermafroditas.


Ao contrário do que se disse à jovem antes, o médico assegurou ser possível operar no país, desde que haja maior entrega dos profissionais e um comprometimento com a causa. Prova disso, revelou que, no ano passado, o HGL realizou uma cirurgia a um indivíduo hermafrodita, já adulto e com sucesso.


Daniel Dambi avançou que existem clínicas privadas no país, onde é possível tais cirurgias, sem que a paciente em causa seja enviada para o exterior, daí o apelo aos demais especialistas e unidades sanitárias, para que abracem este caso por ter solução local.


Importância dos exames


O médico explicou que, caso a jovem faça a cirurgia, apesar de querer ser mulher, é necessário que seja submetida a vários exames, para se saber quais dos sistemas reprodutores está mais desenvolvido.


Por isso, a paciente deve ser observada, com urgência, por um endocrinologista, com vista a determinar a maior quantidade de hormonas produzida, bem como identificar se é testosterona ou a progesterona. "Isto ajudará a encaminharmos a escolha da jovem, em relação à sexualidade”.


Apesar disso, o médico Daniel Dambi deixou claro que a última palavra é sempre da paciente. "Por ser adulta, é quem define o sexo que quer. Se fosse uma criança seriam os pais”, salientou.


Definição da doença


O hermafroditismo é uma anomalia sexual pouco conhecida, originada por um distúrbio morfológico e fisiológico das gónadas (são órgãos que produzem células sexuais, sendo os ovários os representantes do sexo feminino e os testículos, do masculino).


"Em muitos manuais, esta situação é, igualmente, conhecida como intersexualidade, que se apresenta em dois tipos: o hermafroditismo verdadeiro e o pseudo-hermafrodismo, este último, classifica-se em feminino e masculino.


O generalista explicou que o hermafrodita verdadeiro nasce com os órgãos sexuais femininos e masculinos internos e externos bem formados, mas só um se desenvolve devidamente e deixa o outro atrofiado.


No caso do pseudo-hermafrodita masculino, a pessoa nasce com vagina e pénis, mas não possui ovários nem útero. Porém, os testículos não são visíveis, por se encontrarem alojados dentro da zona pélvica. "Mas, sobre o pseudo-hermafrodita feminino, a pessoa nasce com os ovários, mas o pénis é, também, bem definido. E, isso, ocorre por causa do desenvolvimento anormal do clítoris, que passa a ter formato semelhante ao pénis”, esclareceu Daniel Dambi.


Além dessas especificidades, o médico revelou outra forma de hermafroditismo muito rara, que é aquela em que a criança nasce com a região genital externa bem definida, mas possui outras alterações gonadais importantes, como é o caso de um menino que, quando chega à adolescência, menstrua e desenvolve mamas, por exemplo.


"O caso de Maria Ngueve ainda precisa de exames mais profundos, para se saber, ao certo, onde enquadrar o tipo, mas os exames físicos preliminares dão para dizer que se trata de um hermafroditismo pseudo-feminino”.

Jornal de Angola 



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