Empurrado para fora das redacções (6): O DIA EM QUE DATILOGRAFEI MINHA PRÓPRIA ORDEM DE PRISÃO- SEVERINO CARLOS


 Até a escrever sobre desporto já incomodávamos o regime.


Incrível mas é verdade. Estávamos em meados da década de oitenta e eu trabalhava para o Jornal Desportivo Militar (JDM). Época de puro monolitismo ideológico, quando criticar o sistema vigente era rigorosamente proibido. Autêntica cortina de ferro. Todavia, o JDM, a única publicação especializada em desporto que havia no país, teve profissionais acutilantes cujos escritos furavam muitas vezes a cerrada cortina que imperava não apenas em relação às liberdades políticas, como também às de opinião e expressão.  

E eu, modéstia à parte, integrava o leque destes pouquíssimos jornalistas que ousavam pôr a cabeça de fora para criticar o sistema -- ainda que de forma velada e com o risco de isso nos custar castigos nada brandos. Enfim, usávamos de “imaginação e arte & manhas”, como lhe chamou um dia o jornalista Silva Candembo, para contornar a cerrada vigilância de órgãos censores do regime como o DIP do MPLA a fim de mostrar aos leitores a nossa insatisfação pelas coisas que não iam bem em Angola. Era uma espécie de oásis na luta pela liberdade de imprensa e de expressão.



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Num texto evocativo para o Jornal dos Desportos (19 Fev. 2009), Candembo narrou dois episódios ilustrativos, escrevendo o seguinte: “É óbvio que nem sempre as tentativas de contornar a vigilância do DIP ou das autoridades governamentais eram bem-sucedidas. Uma vez, no verão europeu de 1982, o tiro saiu pela culatra. Para veladamente criticar a falta de bens de consumo de primeira necessidade como a carne e o leite, o JDM aproveitou-se de uma jogatana da selecção nacional no ‘Mundial’ de hóquei-em-patins em Barcelos (Portugal) para criticar o sofrível desempenho governamental.”

“Então, diante da poderosa Itália (várias vezes campeã mundial e na época potência ao lado de Espanha e Portugal), a selecção de Angola, em que pontificavam nomes como os de Carlos Fragata, Cândido Teles, Kaissara e outros, surpreendeu o mundo, chegando a dado trecho da partida a vencer por 5-0. No final deixou fugir a vitória e acabou perdendo por 5-6. Na ressaca do desafio o JDM intitulou a crónica da seguinte forma: <<Equipa alimentada a carapau teve arroto a bife>>. Eram os terríveis tempos em que só se comia bacalhau no Natal e, mesmo com cartão especial, carne só se comprava uma vez por semana.”

“Só que, vigilantes, os ‘pensólogos’ da sede do partido ‘decifraram o código’ da mensagem e descortinaram a crítica que subjazia no título. Isto valeu uma enorme reprimenda que não saiu do DIP, mas da ‘Esfera Ideológica’ do partido, face à gravidade da situação. Na redacção todo o mundo tremeu que nem varas verdes.” 

Este foi o primeiro episódio narrado por Silva Candembo. O segundo foi assim: “Noutra ocasião, ao fazer a resenha de um dos jogos do Interclube [contra o 1° de Maio de Benguela], reportando-se à equipa da Polícia Nacional alguém escreveu ‘chuis’ para identificar essa formação. No mesmo dia em que saiu o jornal, uma convocatória chegou à redacção para que o autor das linhas fosse responder a um interrogatório no Ministério do Interior [com o próprio ministro]. Sorte do jornalista é que o subchefe de Redacção, o saudoso Alexandre Gourgel, antecipou-se e foi lá explicar tudo.”

“Ao utilizar a palavra ‘chuis’, o jornalista e todos os camaradas de redacção sabiam que era um termo pejorativo surgido em França em plena II Guerra Mundial, [que os resistentes franceses] usavam para referir-se aos polícias. Bons tempos aqueles em que se fazia necessário usar da imaginação e arte & manhas para criticar o sistema.” (Fim de citação)

Hoje já se pode assumir. No segundo episódio, o dos 'chuis', o jornalista em causa era eu, Severino Carlos. E o autor da convocatória foi nada mais nada menos que o ministro do Interior -- na época, Alexandre Rodrigues ‘Kito’. Alexandre Gourgel, o subchefe de redacção do JDM (o chefe era Gustavo Costa), livrou-me realmente de um castigo que muito provavelmente se consumaria em prisão e sem qualquer julgamento. 

A convocatória fora marcada para a tarde de um certo dia no gabinete do ministro. Contudo, sem me pôr de sobreaviso, num gesto de elevada nobreza que na verdade era obrigação de um chefe que se preze, Alexandre Gourgel resolvera dar o corpo ao manifesto. 

De maneira que ele apareceu, de manhã, no Ministério do Interior. E foi recebido por Kito em meu lugar. Mas, como eu de nada sabia, também me apresentei à convocatória na tarde do mesmo dia, conforme estava realmente previsto. Acabei recebido não pelo ministro, mas pelo chefe do seu gabinete, o qual me pôs a par de tudo. 

“O assunto já está resolvido. Tens sorte, ó rapaz, pois era a ti que o senhor ministro queria” – atirou, levando-me a um cubículo onde eram arrecadadas publicações diversas. E lá estava, numa mesinha, um exemplar do JDM aberto exactamente na página com a matéria do ‘crime’. Destacado, com um marcador amarelo, o parágrafo com a palavra da discórdia: “chuis”. 

Mas a maior surpresa veio quando me disse que o ministro fizera questão de chamar igualmente ao encontro o director nacional das penitenciárias. “É para veres o tamanho da gravidade do assunto. Então achas que a nossa Polícia é repressiva para lhe atribuíres o termo chuis?!”, exclamara, em tom marcial, o chefe do gabinete de Alexandre Rodrigues ‘Kito’. “Podes ir, que o assunto foi resolvido. Mas passe a ter mais cuidado com o que escreves”, acrescentou, dessa vez já num ligeiro tom paternal. 

Tive sorte mesmo. Deixei a Avenida Marginal sentindo-me um pequeno Salman Rushdie, o escritor iraniano autor dos “Versículos Satânicos”. Tinha eu apenas 22 anos. Eram os meus verdes tempos de profissão e acabara de enfrentar a primeira de uma série de fortes colisões que teria, com o sistema implantado pelo MPLA em Angola, ao longo da minha carreira.  

 


  ORDEM DE PRISÃO SIMULADA


Um outro episódio protagonizado por mim no JDM quase foi de proporções diluvianas. Ou seja, na sequência dele, se dependesse do então secretário de Estado de Educação Física e Desportos (SEEFD) o JDM teria sido inapelavelmente encerrado pelas autoridades. 

Estávamos também em meados dos anos oitenta quando estalara um célebre escândalo futebolístico que ficou conhecido como o ‘Caso Mingo’, por ter envolvido um craque angolano com o mesmo nome. Inter e Progresso do Sambizanga batiam-se pela posse do jogador gerando uma algazarra a que nem o Conselho Jurisdicional da FAF conseguia pôr cobro. Para piorar, o organismo de tutela máximo do Desporto mostrava-se sem competência para resolver o imbróglio, limitando-se simplesmente a empurrá-lo com a barriga.

Estava-se, enfim, diante de um quadro de clara inépcia das autoridades desportivas. Ao analisar o caso num artigo que escrevi para o JDM, recorri a uma imagem satírica e qualifiquei o que se passava como algo próximo de um teatro de marionetas.  Fantoches mesmo.

Buuummm! O céu quase desabou sobre mim e sobre o JDM. Naquele tempo a palavra 'fantoche' era tão pejorativa que apenas se aplicava em referência aos militantes e dirigentes da UNITA. Os “kwachas” eram os únicos fantoches, de acordo com o léxico político e a propaganda do regime.

 O titular da SEEFD sentiu-se de tal modo melindrado que foi ter com Roberto de Almeida, que era na altura o chefe do órgão que zelava pelas questões de pureza ideológica do partido único, acima mesmo do célebre Departamento de Informação e Propaganda (DIP).

O SEEFD pretendia que Roberto de Almeida usasse dos seus poderes para encerrar o jornal. Mas este tratara de dizer ao titular dos desportos que lhe estava a pedir algo fora da sua alçada, uma vez que o JDM era um órgão de imprensa militar. Melhor seria que se levasse o caso à tutela respectiva, sugeriu Roberto de Almeida. Acto contínuo, um deles, Almeida ou o SEEFD, abordou António França ‘Ndalu’, que era na época o chefe do Estado-Maior General das FAPLA e, em simultâneo, presidente do Comité Desportivo Nacional Militar, organismo a que o JDM estava vinculado.

Todo o mundo sabe que Ndalu é geralmente uma pessoa cordata e sensata. Não é de ferver em pouca água. Qualidades, aliás, que o líder da UNITA, Jonas Savimbi, muitas vezes elogiou publicamente. Por isso, Ndalu logo viu excesso de zelo e trivialidade no caso que tinha em mãos. De modo que o que ele fez foi pedir que o director do JDM, o jornalista Ângelo Silva, achasse uma forma airosa e discreta de pôr uma pedra sobre o assunto. 

Ângelo Silva conversou comigo. Contei-lhe a minha versão do sucedido e o que saiu daí foi uma solução artimanhosa: a minha prisão! Melhor, inventou-se a minha detenção. Como? Eu mesmo tratei de dactilografar uma guia de prisão dirigida do CODENM para o Serviço de Tropas de Luanda. Fui ao temível ST, onde um amigo meu, que era o chefe da ordem interna ou algo parecido, protocolou e deu baixa à guia de prisão, simulando a detenção. Acho que fiquei uma semana em casa, após o que voltei ao serviço com toda a normalidade. 

Portanto, já naquela altura, em início de carreira profissional, ficava registado que uma das facetas que me caracterizariam seria exactamente a independência do sistema. De resto, hoje diante da morte de Teta

 Lágrimas, irmão desse ícone da música nacional que foi Alberto Teta Lando, ocorre-me fechar com um outro episódio.


FUNGE DE DOMINGO


Certo dia, eu e o Silva Candembo saíamos do JDM onde trabalháramos toda a manhã. Nesse dia pus o meu colega quase petrificado de susto. 

 Decidimos ir almoçar ao antigo mercado da Calemba. Naquele tempo quase todo o mundo andava a pé. Quando atravessávamos a Zona Verde a conversa era sobre a música de Teta Lando que na altura, a partir de França onde se encontrava exilado, acabara de lançar esse ‘granda brinde’: “Funge de Domingo”. 

De elogio em elogio, expressei ao meu companheiro o desejo de ver um dia os angolanos se reconciliarem. A isso acreci a seguinte tirada: “Candembo, mas tem de ser uma reconciliação genuína. Só entre nós angolanos, sem a presença dos cubanos!”

Foi aí que vi o Silva Candembo a transpirar por todos os poros. Arregalou os olhos e pôs-se a observar se havia alguém a passar que eventualmente tivesse escutado o meu perigoso e imprudente desabafo político. Convenhamos, de facto, que era um desabafo pouco habitual na época. 

Sempre fui assim: insurreto. Com frequência o Candembo me recorda esse episódio e partimos o coco de tanto rir.





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