A historia do capitão ghanês Kojo Tsikata que combateu em Angola - Augusta Conchiglia



A 14 de Julho 1960, ou seja, menos de duas semanas depois da independência do Congo, um contingente de Capacetes azuis das Nações Unidas, a ONUC, é enviado para Léopoldville - futura Kinshasa - a pedido do primeiro-ministro do Congo, Patrice Lumumba.



A estabilidade do país é ameaçada pela presença de comandos da Bélgica que intervieram depois de motins do exército congolês contra os oficiais brancos que se tinham mantido depois da independência. Instabilidade no exército congolês, rivalidades internas agravadas pela secessão da rica província do Katanga que consegue a assistência militar da antiga potência colonial. Lumumba protesta veementemente e pede a intervenção da ONU.





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O presidente do Ghana, o pan-africanista Kwame Nkrumah, com que Lumumba tem tido relações calorosas desde a conferência de 1958, de Accra, sobre a libertação do continente, garante a imediata disponibilidade de unidades do seu exército e convence o secretário-geral da ONU, Dag Hammarskjold, do carácter urgente duma missão internacional no Congo. A resolução do Conselho de Segurança, que aprova a intervenção da ONU e pede a retirada das tropas da Bélgica, é aprovada quando o avião de Accra já estava no ar com os primeiros voluntários do exército do Ghana, que iam ser coadjuvados por algumas unidades da Tunísia.



A operação é dirigida pelo general ghanês Ankrah. A missão orgulhava os seus participantes que viam em Lumumba um verdadeiro e corajoso anticolonialista à cabeça dum país crucial para o futuro do continente. Entre os militares do Ghana, havia um capitão ghanês formado na escola militar de Sandhurst, na Inglaterra: Kojo Tsikata. Se a ONUC conseguiu obter a retirada dos militares da Bélgica da capital, a situação não cessou de piorar no país, com a secessão de outra província, o Kasai, e a indisciplina no exército.



As forças da ONUC, cujo número chegou a registar 2500 homens, protegeram Lumumba quando, no início de Setembro, o presidente Kasavubu o demitiu sem pré-aviso e o coronel Mobutu o tem posto em prisão domiciliar. Mas, o líder congolês acabou por ser capturado por forças leais ao futuro general Mobutu, quando tentava juntar-se às forças de Antoine Gizenga, que tinham tomado a região de Kisangani. A captura ocorreu no dia 1 de Dezembro, não longe das forças da ONUC que esperavam o sinal verde de Nova Iorque para se interpor. Contudo, a ordem não chegou e o general Ankrah não interveio. Levados ao Katanga, Lumumba e os seus companheiros foram atrozmente torturados e mortos com a participação (confessa) de militares da Bélgica.



A decepção foi enorme em Accra, como entre as forças da ONUC. Foi assim que Kojo Tsikata decide dar outro rumo à sua vida, contribuindo pessoalmente para uma causa sem ambiguidade: a luta anticolonial do MPLA. Em 1964, Tsikata volta a Accra, sai do exército e contacta Hugo de Menezes, o representante do MPLA no país. Esse introdu-lo a Agostinho Neto que acaba por aceitar a sua proposta de participar na luta armada e na formação dos combatentes. Em Maio 1965, Tsikata voa para Brazzaville.



Hospedado no início na casa de Chipenda, o "retired" capitão ghanês encontra-se com os dirigentes do MPLA presentes, nomeadamente Lúcio Lara. Passa por Dolisie, no Sul do país, num centro de treinos do MPLA e se aproxima à fronteira de Cabinda com um grupo de guerrilheiros comandados por Hoji-ya-Henda. O objectivo era reforçar a frente de Cabinda, onde as condições da guerrilha são particularmente difíceis, numa zona de floresta equatorial muito densa e uma população extremamente dispersa e pouco mobilizada, lembra Kojo Tsikata numa entrevista.



O comandante Henda apresenta Kojo aos outros membros do grupo como sendo Carlos Silva, um angolano emigrado na Zâmbia. Na mesma altura, tinha-se juntado um punhado de combatentes cubanos veteranos da Sierra Maestra, que, por sua vez, Henda apresentou como sendo angolanos que residiam em Fernando Po (Guiné Equatorial), o que explica que falassem somente espanhol...! Kojo conta que, no início, os cubanos desconfiavam dele, uma pessoa que sabia de arte militar e falava inglês, ou seja, um perfeito agente da CIA! A convivência no inóspito interior de Cabinda, os sacrifícios e a fome fizeram que cada um acabasse por revelar a sua verdadeira identidade - para uma amizade duradoura, nomeadamente com o general Moracen.



Em fins de Dezembro de 1965, uma acção de maior envergadura estava em preparação: a operação "Macaco", para a qual os cubanos tinham recebido material mais moderno e o grupo tinha treinado. Porém, a unidade portuguesa visada deu-se conta de uma possível emboscada pelo ladrar de um cão. Todos os guerrilheiros conseguiram fugir e, nos dias seguintes, recuperar o material militar enterrado na área prevista para a acção, lembra Tsikata. Voltaram a Dolisie e analisaram a situação. Tsikata volta em Cabinda mais tarde e, nas suas memórias, descreve com emoção a coragem de alguns jovens sempre prontos em obedecer às ordens, enfrentando todos os perigos, tais como o Gato, que tinha, na altura, 19 anos.


 


Depois do derrube de Kwame Nkrumah, deposto em Fevereiro 1966 por um golpe de estado militar, Tsikata regressa à região da Africa Ocidental, para onde se refugiaram algumas das figuras ligadas ao líder ghanês, e a França, onde é tratado uma infecção pulmonar.



Após o estabelecimento dum regime parlamentar no Ghana, em 1969, que leva ao poder o partido dos líderes anti-Nkrumaistas, dirigido por Kofi Busia, Tsikata volta ao Ghana. Mas, os militares que derrubaram Busia em 1972 desconfiam desta figura conhecida pela sua temeridade e fidelidade a Nkrumah. Ele é preso em Novembro de 1975 e condenado à morte no ano seguinte, acusado de ter atentado contra o poder do general Ignatius Acheampong.



Agostinho Neto decide entreter-se com o Presidente do Ghana durante uma cimeira da OUA, com o fim de obter uma medida de clemência para Tsikata ou a sua libertação. O pedido é reiterado pelo primeiro-ministro angolano Lopo do Nascimento, que é recebido pelo general ghanês nos primeiros meses de 1978. Afinal, será um outro general que o libertará, Fred Akuffo, que, por sua vez, derruba Acheampong em Junho 1978.



Quando um jovem capitão de aviação, Jerry John Rawlings, toma o poder em Junho 1979, num contexto de gravíssima crise económica e de corrupção desmedida, Kojo Tsikata encontra-se em Luanda, para onde tinha ido agradecer Agostinho Neto. Quando o Presidente angolano sabe dos acontecimentos em Accra, disse logo ao amigo Tsikata que devia ficar de vez em Angola! Mas Tsikata conhecia a génese desse acto e sabia que não se tratava dum golpe da mesma natureza dos anteriores.


Kojo Tsikata e Jerry J. Rawlings



Quando Kojo Tsikata regressa a Accra (Ghana), interrompendo a sua visita de amizade a Luanda em Junho de 1979, a situação do seu país tinha mudado no espaço de poucos dias. O regime militar dirigido pelo general Frank Akuffo caiu como um castelo de cartas. O sucessor, Jerry John Rawlings, de 32 anos, um jovem oficial da força aérea, totalmente desconhecido pelo grande público, tinha galvanizado soldados e suboficiais dos quartéis da capital, quando, a 15 de Maio, prendeu com um punhado de camaradas alguns oficiais superiores, para que tomassem consciência do nível de descontentamento dos "menosprezados soldados rasos", como do povo trabalhador que sofria os efeitos de uma longa e profunda crise económica, num contexto de corrupção endémica.

 


Presos pelos elementos leais ao Governo, Rawlings e o seu grupo são julgados no dia 1 de Junho num tribunal aberto ao público a que assistiu numeroso, a fim de ouvir as motivações do "flight-lieutenant". Os media contam que foi o procurador do tribunal que involuntariamente fez conhecer os argumentos de Rawlings, citando o relato acusador dos oficiais reféns sob os aplausos entusiastas do publico. Ao amanhecer do dia 4 de Junho, Rawlings é liberto da prisão da Special Branch pelos soldados que o conduzem de imediato para a Rádio Nacional, tomada, entretanto, por elementos do prestigioso Quinto Batalhão. "Os soldados libertaram-me, eles estão tomando conta do país", declara Rawlings, pedindo que se evite uma efusão de sangue.



Reconhecido como o novo líder, Rawlings instala-se no quartel de Burma Camp, convida as altas patentes com reputação de honestidade e tenta controlar a terrível e brutal explosão de raiva dos "ranks and files". Rawlings, ao qual se tinha juntado Kojo Tsikata, cria a surpresa anunciando a manutenção da data prevista das eleições gerais, a 16 de Junho. Eram as primeiras agendadas desde o golpe de estado militar de 1972. Empenha-se a devolver o poder aos civis depois da regular transição de três meses. Um lapso de tempo que quer empregar para julgar em tribunais civis os maiores corruptos e traficantes, criar uma estrutura eficiente contra a evasão fiscal, combater a especulação impondo o respeito pelos preços oficiais dos produtos de primeira necessidade, fortalecer o poder dos sindicatos... Rawlings ganha, então, uma inesperada popularidade a nível nacional, mas suscita a desconfiança da classe política tradicional.



As eleições são ganhas por um partido que se revindica da herança ideológica de N"krumah, e cujo chefe, Dr. Hilla Limann, presidente eleito, promete prosseguir e aprofundar as medidas económicas e sociais lançadas pelo movimento "4 de Junho". Mas, dividido e pouco dinâmico, o Governo de Limann é incapaz de manter as promessas eleitorais, numa conjuntura económica sempre mais degradada, e, além disso, obcecado pelo olhar crítico de Rawlings. Acaba por concentrar a sua acção no afastamento dos círculos políticos ou militares de Rawlings e do influente Tsikata, facilitando ao mesmo tempo a repetição do julgamento e libertação das principais figuras corruptas condenadas em 1979. Para conter a tensão a nível popular e no seio do exército que continuava a subir, o Governo de Limann enche as prisões. Mais um erro imperdoável.



Na manhã de 31 de Dezembro de 1981, Rawlings entra novamente em acção. O seu primeiro anúncio na Rádio Nacional é emblemático: "Este não é um golpe de estado, é uma revolução!" Desta vez, tinha preparado as condições para controlar os excessos da tropa. Já não era um motim contra os oficiais, mas a esperança de uma vida melhor que devia motivar os insurgentes. Os primeiros anos foram extremamente difíceis. A gestão caótica de Limann tinha afastado ainda mais os doadores e os investimentos estrangeiros. Na tomada de poder de Rawlings, as reservas para importações cobriam meramente duas semanas. A Nigéria, como já o tinha feito em 1979, suspende as entregas de petróleo ao Ghana. E a Líbia, que promete substituí-las, avança com pequenas quantidades, apesar das promessas. Não havia mais comida, medicamentos nem matérias-primas para a indústria. As plantações de cacau, de que o Ghana foi o segundo exportador mundial, não tinham sido cuidadas pelos produtores mal remunerados, sendo, muitas vezes, transformadas em hortas de subsistência. Ao mesmo tempo, a perspectiva de dialogar com o FMI era hostilizada pela ala esquerda do Provisional National Defense Council no poder, que rejeitava também a necessária desvalorização da moeda.



Tsikata vai contribuir para canalizar as energias populares, apoiando a organização dos comités de defesa dos trabalhadores a todos os níveis, que, apesar de alguns excessos, se tornariam a base das assembleias dos governos locais, ou seja, da futura democracia participativa que permitiu ganhar certa estabilidade e manter a coerência nacional.
Quando, depois de várias deliberações e estudos, a equipa económica do PNDC dirigida por um brilhante professor, Kwesi Botchwey, decide, em 1982, negociar com o FMI uma primeira tranche de um empréstimo salvador, a franja de militares e elementos "ultra-revolucionários" decide tomar o poder e afastar Rawlings. A tentativa, que contava com a mobilização maciça dos comités de trabalhadores nas ruas da capital, o que não ocorreu, falhou: o exército manteve-se fiel a Rawlings e informou-o dos preparativos. Este minimizou publicamente o acontecido, que não causou vítimas, mas ficou muito magoado pela traição de companheiros que o acompanharam desde 1979.



Quando, mais de um ano depois, o encontrei em Ouagadougou, como convidado de honra de Thomas Sankara, Rawlings propôs-me seguir para Accra com o propósito de me contar em detalhe o episódio que o tinha "sacudido". Tinha eu consciência da perigosidade do esquerdismo infantil, sobretudo em países subdesenvolvidos? - perguntava-me. Entretanto, o seu país tinha sido alvo de mais tentativas de derrubar o PNDC no poder, originadas pelos países vizinhos francófonos que receavam o exemplo de Rawlings, como, aliás, de Sankara. A expulsão, em Janeiro de 1983, de mais de um milhão de emigrantes ganeses da Nigéria, também visava abalar o ainda frágil poder de Accra. Este surpreendeu o mundo inteiro pela maneira como soube acolher e reintegrar, sobretudo no campo, os seus "retornados".
Kojo Tsikata, nomeado chefe da Segurança Nacional e dos Negócios Estrangeiros do PNDC, viveu então anos de turbulências. As tentativas de destabilizar o Ghana não cessavam, abençoados e, às vezes, financiados pela CIA de Ronald Reagan. Assim, ao mesmo tempo que os doadores e investidores internacionais voltavam a interessar-se pelo futuro do Ghana, as tentativas de derrubar o regime de Rawlings desde o exterior continuavam.



Em 1985, a investida da CIA no país torna-se pública. A chefe da antena da CIA em Accra, apaixonada por um ganês - que acontece ser primo de Rawlings! - entregou-lhes os nomes de pelo menos 50 agentes da CIA na alta administração, no exército ou nos negócios estrangeiros do país. Washington suspeita da sua agente e acaba por retirá-la. Ela é presa após o regresso aos Estados Unidos, em companhia do seu apaixonado. Accra prende, imediatamente, os agentes e exige a libertação do ganês acusado por Washington de "ameaçar a segurança de Estados Unidos"! O seu regresso à pátria é laboriosamente negociado por Tsikata.



Os agentes são expulsos para América, privados da nacionalidade ganesa. Finalmente, a eleição de Clinton e os sucessos palpáveis da reconstrução económica do Ghana contribuem para normalizar as relações entre os dois países. Com o restabelecimento da democracia parlamentar, Rawlings é confortavelmente eleito em 1992 e é reeleito em 1996, para um segundo e último mandato constitucional.



As tentativas do descartar da competição foram, porém, numerosas. Acusado de não ter direito ao poder constitucional por ser mestiço, filho de um pai estrangeiro (escocês), ele foi julgado e absolvido graças as batalhas dos seu advogados constitucionalistas. Mais, durante o seu primeiro mandato, a oposição boicotou obstinadamente o parlamento. Voltando a melhores sentimentos no segundo mandato, apesar da derrota.



A história registará o balanço da acção dos governos de Rawlings na modernização e na criação de infra-estruturas económicas e sociais, que são, ainda hoje, segundas em importância depois de Kwame Nkrumah. No funeral de Rawlings, em Janeiro passado, o actual Presidente do Ghana, Nana Akufo-Addo, expoente dos partidos na oposição durante os mandatos do "flight-lieutenant", reconheceu calorosamente a válida contribuição deste ao renascimento do seu querido Ghana.



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