O HOMEM NOVO- SEVERINO CARLOS



O ministro Marcy Lopes tem andado a adestrar o povo deste país a ser malandro, amoral e saber mentir com quantos dentes tenha na boca? 

Ora, na verdade, este episódio não me escandaliza. Afinal, este é exactamente o protótipo do "homem novo" cuja construção o MPLA reivindicou para si desde os primórdios da independência de Angola, mas sobretudo após a deriva ideológica que sobreveio ao regime passados uns poucos anos do marco inicial do país. 

A ideia passou a ser transformar o homem angolano num indivíduo fútil e sem moral. Um tipo hedonista, ou seja, amante e cultor extremo da vida fácil e dos prazeres materiais. 



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Pelo que estamos a ver em muitos dos nossos jovens, de que faz parte o agora famigerado ministro Marcy Lopes, e salvo obviamente as excepções da ordem, este objectivo prosseguido pelo movimento dos "camaradas" foi plenamente alcançado. 

Por isso é que combater a  corrupção está a ser um exercício complicado. Um extenuante arrastar de pés que tão cedo não irá livrar o país dos corruptos e ladrões de dinheiro público de todos os tipos e calibres de que estamos infestados. Certos jovens "mal cozidos", lançados na tarefa de governar, mostram-se piores que os seus predecessores no saque ao erário. Parece que enquanto estudam (claro, os que estudam!) já sonham com o dia em que passarão a refastelar-se no luxo, conforto e mordomias proporcionados pelos proventos de um comportamento corrupto. 

Dizemos isto com toda a responsabilidade: lamentavelmente, e sempre com as excepções que confirmam a regra, constatamos que os jovens angolanos em geral, de uma geração que vai dos 18 aos 35 anos, foram tomados por uma "abulia social" -- aqui entendida como um fenómeno que os leva a inclinarem-se pela vida fácil, pautando o seu interesse por coisas triviais e fúteis, desinteressando-se porém dos aspectos sérios e que realmente contam e são relevantes para a vida em sociedade. 

Um aspecto perturbador desta problemática está na observação de que parte substantiva da mocidade angolana tende a resumir o seu futuro num palco de dança e música, por acharem que aí está o êxito e a forma mais rápida de adquirir dinheiro, ou de conquista e valorização pessoal. 

É claro que temos também jovens responsáveis e com uma visão progressista do país. Jovens que clamam, bradam e lutam contra a situação reinante. 

Mas não somos míopes e vemos que, de um modo geral (repetimos, exceptuando as excepções à regra), a juventude do país está muito longe da prestação e da preparação que lhe permitiria ser a mola impulsora do desenvolvimento da nação quer nos aspectos do conhecimento intelectual e tecnocrático, quer nos do comportamento ético e moral. 

Sabemos bem onde tudo isso começou. As causas desse fenómeno radicam também numa condução irresponsável que foi feita da nossa sociedade. As políticas educacionais deficientes associaram-se a uma deliberada e equivocada ausência de transmissão de valores juvenis verdadeiramente úteis como política do Estado. O resultado não poderia ser outro senão o trágico cenário de uma elevada franja da população juvenil entregue ao consumo de estupefacientes e que vive de esquemas torpes como a burla e toda sorte de negócios escuros. 

Em última análise, não tenho o menor pejo em afirmá-lo, houve uma clara e conveniente intenção dos estrategos do MPLA de produzirem uma juventude amorfa e acrítica, com dificuldades para exercer devidamente os seus direitos de cidadania. De facto, exceptuando alguns redutos juvenis que hoje vemos com atitudes contrárias à submissão ao "status quo", essa visão acrítica dos aspectos fundamentais da sociedade foi o que o regime implantado pelo MPLA realmente passou a visar a determinada altura do seu percurso no poder. 

E, agora, este é o "homem novo" com que o país se vê infelizmente confrontado. E indivíduos de má índole como o ministro Marcy Lopes representam apenas um minúsculo "iceberg" dessa tortuosa cadeia. Um protótipo que encontramos maioritariamente instalado no seio do MPLA, desde a sua cúpulas às bases. Um "homem novo" que ficou  décadas a fio sem criticar a má governação; que aceitou sem recalcitrar que o empirismo reinasse nas instituições do Estado; que viu crescer assustadoramente o roubo descarado do erário e assumiu a corrupção e o peculato como formas de vida. Um "homem novo" resignado com a democracia de fachada que lhe usurpa os mais elementares direitos de cidadania e o condena a viver num país com elevadíssimos níveis de pobreza apesar do seu enorme potencial em recursos naturais. 

Não resulta do acaso que regiões metropolitanas de cidades como Luanda e Benguela -- aonde acabaram por convergir jovens sem quaisquer perspectivas de vida -- tenham sido tomadas pela criminalidade violenta. Um fenómeno que, como se sabe, perturba as vidas de centenas de milhar de famílias angolanas, mas para a mitigação do qual nem o Governo parece ter as políticas adequadas e eficazes, nem a Polícia Nacional acha o antídoto. 

As matanças indiscriminadas de jovens delinquentes perigosos não constituem solução para a reversão de um problema originado, primacialmente, pela situação de pobreza e de falta de emprego. Este quadro sombrio gera, evidentemente, por parte dos jovens, fortes índices de rejeição à governação, como estamos a observar actualmente nas manifestações de indignação que têm levado a cabo. 


Não sabemos ainda onde realmente tudo isto irá desembocar. Mas o certo é que não ajuda a mitigar a problemática juvenil do país uma outra questão grave da nossa sociedade que reside na falta de transparência que, como um cancro em gangrena, mina igualmente a governação actual. Tal é o que se está a verificar mesmo em relação ao tão propalado combate à corrupção. 

A fórmula seguida, de clara selectividade dos alvos, tem vindo na realidade a premiar os membros do regime que, à pala de um perverso programa de criação de uma burguesia nacional, construíram riquezas que ofendem a maioria esmagadora dos angolanos à custa da delapidação e pilhagem dos recursos do Estado -- e o mesmo é dizer à custa do dinheiro do Povo Angolano. 

O grosso dos "Al Capones" do passado, bem conhecidos do público, continua a passear-se por aí, olímpicamente impune e alegre! E só os ladrões de galinhas e botijas de gás são engaiolados, como que para dar o exemplo. Certo é que é também por causa desse desacerto nos critérios que a impunidade permanece. E, com isso, qual um "dejá vu", estimula-se a chegada de novos comensais à mesa de um brutal e pantagruélico repasto. Novos comensais com um apetite voraz que vão tentando também a sua sorte. 

O erário continua, efectivamente, a ser alvo de despudorado saque. Mas o tópico que conta relativamente ao combate à corrupção, não está em desejar, forçosamente, a prisão de quem quer que seja. O ponto que conta é que deveríamos ter um processo baseado em transparência e eficácia, capaz de assegurar a restituição dos recursos desviados em níveis proporcionalmente aceitáveis, mas sem que isso perigue a estabilidade da economia e da sociedade. Esta deveria constituir uma oportunidade a ser aproveitada pelas autoridades para pôr o país a enveredar por processos mais justos de construção e partilha da riqueza nacional, sem exclusões de espécie alguma. 

Mas, retornemos à vaca fria: os jovens. O problema -- não tenhamos ilusões -- é que os jovens estão a ver todas as simulações e processos torpes de governação. E a esta hora muitos deles, provavelmente, estarão convencidos de que, afinal, apesar do discurso contra a corrupção, continua a valer a pena correr o risco de pôr as manápulas no dinheiro do Estado.

Vimos, bem recentemente, como está a nossa sociedade, e sobretudo os jovens, na forma como se reagiu ao famigerado episódio do major Alfredo Lussati. Ao invés de uma condenação geral, as pessoas, lá no fundo, viram nele não o larápio e gangster que o indivíduo é na realidade, mas uma espécie de herói cuja vida todos gostariam de ter. Um episódio, aliás, sorrateiramente inspirado pelas autoridades, sem se importar com os custos sociais deletérios nele envolvidos. 

Por outro lado, os maus exemplos que os jovens assistem impulsionam-nos a pensar que continua a ser tentador ser bajulador. Que mal há nisso se, afinal, todos os jovens que se entregaram aos piores exercícios de "lambe-botismo" na política acabaram por ser premiados? A maioria esmagadora dos jovens que no "ancién regime", na televisão e noutros palcos, andaram, vergados de forma repugnante e patética, a defender coisas indefensáveis como a má-governação, a falsa democracia ou os atropelos aos direitos humanos, viram-se novamente reconduzidos e ou premiados com autênticos "tachos" no aparelho governativo. 

É desnecessário estarmos aqui a citar os nomes de alguns destes nossos "campeões" que foram promovidos aos mais altos escalões do poder devido às altas performances evidenciadas no campeonato da bajulação. 

Ora, com práticas destas, continua-se a estimular os jovens do país a serem cultores da falta de dignidade e carácter, como que dizendo-lhes que podem triunfar na vida pisoteando, despudoradamente, regras morais e de sã convivência. Estamos a falar, em suma, de mil-e-um processos de manigância que, em termos miméticos (aquele atributo de adaptação à cor do meio envolvente que os camaleões possuem), contagiam negativamente a forma de ser e de viver dos jovens angolanos. De modo que não pressagiam nada de bom para o futuro de Angola caso não se faça nada para travar tal tendência. 

 E foi nisto mesmo que o ministro Marcy Lopes quis adestrar os demais jovens. 

Mas tenho fé que ainda há uma juventude boa no país e que "não se estragou". E esta pode ser responsável por conduzir e liderar um processo regenerador. Eles podem enxertar nos demais jovens angolanos, com os quais deverão interagir, estilos de vida e conduta mais saudáveis e mais compagináveis com os desafios de transformar Angola na grande Nação que merece ser no concerto internacional.




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