CU-DURO, KU-DURO , KUDURO- HITLER SAMUSSUKU



O presente texto surge na senda da discussão que decorre nas redes sociais a respeito do kuduro na qual alguns defendem ser cultura e outros não. Sendo alguém que durante anos fiz kuduro cantando e investigando todas as suas dimensões, atrevo-me a escrever breves considerações para melhorar a discussão em volta desta temática. Antes demais, vale distinguir dois conceitos chaves, o primeiro é cultura que é um conjunto de prática, crenças e modos de viver que fazem parte do cotidiano de um grupo social de acordo com as minhas pesquisas na Google, e o segundo conceito é Cultura urbana que seria, por extensão, a expressão de grupos que desenvolvem sua arte nas ruas, nos bairros, em espaços públicos que são democratizados, criando novas sociabilidades. Assim sendo, o Kuduro é uma cultura urbana no meu ponto de vista porque é um estilo de música , de dança e de vida de um grupo social maioritariamente jovens marginalizados, mas que acabou por penetrar em todos os seguimentos sociais . O kuduro é ouvido e cantado das periferias até na cidade.

🔺 ETIMOLOGIA

O que hoje chamamos de kuduro inicialmente escrevia-se Cu-duro. O prefixo “Cu” vem do latim culu, significando extremidade do intestino grosso, ânus; orifício por onde são expelidas as fezes. Já o sufixo “duro” é o adjectivo Rijo, firme, sólido. Que opõe resistência. Custoso, difícil, árduo. Porém, durante os anos de 90 até início de 2003 escrevia-se Cu-duro, em 2004 passou a ser escrito Ku-duro e a partir de 2005 o hífen deixou de existir passando assim para kuduro. O estilo em si, começou com o Tony Amado com a canção “Amba cu duro” inspirando num toque de dança no filme de Van Dame e mais tarde na telenovela Xica da Silva através do personagem Jacobino.  A medida que o tempo passou, o kuduro sofreu metamorfoses através de influências do Ndombolo do Congo democrático, Pop, tecno, dance e do hip hop. 



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🔺VAGAS 

* A primeira vaga de kuduristas emergiu nos anos 90 com Tony Amado, Sebem, Queima Bilha , Semal etc…até o início dos anos 2000;

* A segunda vaga começa com Pai Diesel e Máquina do Inferno, segue o Nacobeta, Puto Português, Mbila-Mbila etc…

* A Terceira vaga começa com a Fofando , segue a Gata Agressiva, Nayo Cruise e Noite Dia. Nesta fase, o kuduro era feito em duplas de casal, ou seja, Fofando com Saborosa, Noite e Dia com Puto Prata, Paranóico e Dama Shakira assim sucessivamente; 

* A quarta vaga inicia com Magnésio, seguem os Lambas, os Alamedas, os Kalunga Mata, os Babilônias , os complicados etc… nesta altura o kuduro tornou-se a trilha sonora das gangs de Luanda. O Magnésio que era membro dos Laranja Squad lançou a música Tchiriri e depois três jovens do Sambizanga na altura o nome do grupo era “Demônios do Sambizanga”, lançaram a dança dos Lambas em referência ao gang mais falada da gajajeira entre o Sambizanga e o Rangel, isto estimulou outros grupos a seguirem o exemplo .

* A quinta vaga é a da decadência, ou seja, o kuduro entra numa linha de lamento comandado pelos kuduristas do Kazenga e depois retrocede as cenas de animações tal como era nos anos 90. O kuduro deixa de ser a trilha sonora das gangs e passa a ser simples animação cultural.

🔺 A INFLUÊNCIA DO HIP HOP 

Por detrás de todo o sucesso de kuduro houve sempre um compositor ligado ao hip hop. O kuduro iniciado com a Fofando trouxe ênfase na composição rimática, pese embora que o Zoka Zoka na sua dança do peito já rimava. Mestre Ara foi então o primeiro Rapper a compor letras para muitos kuduristas de sucesso do Rangel. No Sambizanga destacam-se Amdeloy, Fábio King e Gau Gau que foram durante anos responsáveis pelas letras dos Lambas. Dj Naile, Rei Panda e Bruno M antes de serem kudurista tiveram passagem activa no hip hop. Em suma, o hip hop influenciou no modo de composição das letras do kuduro a partir do ano de 2004.

🔺 SUCESSOS 

* Anos 90, a Felicidade de Sebem foi uma das músicas mais marcante na virada do milênio dois mil, tal como a música sempre a subir de Virgílio Faya, Aqui mbora está se male de Dog Murras ;

* Anos 2000, Wakimono de Nacobeta e Putu Português, Vai lavar a louça, lamento do Da Beleza e os beefs do Pai Diesel versus Máquina do Inferno marcaram os primeiros anos e depois seguiram as músicas das duplas Kibeixa , Dança do chão, o oito, o quatro, tchiriri, rebenta, mexer o bum bum, AM, bilindade, defaya, do man ganza, Tchubila etc…

🔺 DISC JOCKEY 

Por detrás de cada sucesso de kuduro houve sempre um Dj, por exemplo: Dj Zenobia foi responsável por muitos sucessos do Rangel tal como o Dj Kilamú. No Sambizanga, o Dj Man Killa foi responsável sobretudo pelo sucesso dos Lambas e depois juntaram-se os Dj Buda, Dj Olavio, Dj Bobo G . Outro Dj com grande destaque foi o Dj Fox, mas também não se pode esquecer os Dj Dom Milagre, Watara, Gaston Júnior, Filas , Mo da Spin etc…

Um dado curioso é que no kuduro há dois tipo de Disck Jockey, abreviadamente Dj, ou seja, existem alguns que limitam-se na gravação e masterização como Dj Gibril e outros que espalham as músicas através de intermediários no mercado como Dj Romeu.


🔺 NO MOXICO 

O kuduro no Moxico começou em 2003 com o Gazela e o Scoot R, mas foi o Padoka quem conseguiu ter mais sucesso, pese embora que depois surgiram outras referências. Nuno Danger e Silício Star representaram os Patrulhas Squad, bem como o Hamilton Yo. Os Morreu também tiveram tempo de glória e depois o R-King e os Nirvanas do Lwena. Tal como em Luanda, o Kuduro serviu de trilha sonora para as gangs do Lwena, sobretudo, com o surgimento dos Priva Squad e dos Patrulha Squad dois grupos rivais . Eu era dos Patrilha Squad e tivemos a sorte de dominar 85% da cidade do Lwena. Na altura não havia melhor kuduro do que o nosso. 

Em suma, o kuduro é uma cultura urbana que teve como o ponto mais alto o ano de 2005 em que emergiram vários grupos e sucessos musicais, foi também neste contexto em que ganhou uma identidade e afirmação, sobretudo, com a música Comboio dos Lambas a sair em video clip. O kuduro também ao tornar-se trilha sonora do contexto de criminalidade que assolava a periferia e a cidade ganhou corpo e deu movimento. Os kuduristas tem uma forma típica de apresentar-se na sociedade, alguns tem uma forma de comunicação fora do comum, tal como a dança. O kuduro perdeu o peso social com a extinção do mercado do Roque Santeiro e principalmente com o surgimento da LS & Republicano ( um editora do MPLA que procurou congregar todos os artistas e ao mesmo tempo controlar as letras e a carreira).

OBS: Era para escrever um texto melhor, mas não fui capaz, perdi-me.       



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